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sexta-feira, 27 de abril de 2012

O meu tempo

Estou há duas semanas em digressão. Estive dois em Chaves a falar com os alunos das escolas da cidade. Daí segui, para Viana do Castelo, onde estive mais dois dias, no âmbito do Festival Contornos da Palavra. Fui a casa um dia para descansar e depois fui à Sertã para a Convenção Anual de Bookcrossing. Mais dois dias de descanso. Depois passei uma manhã na Escola São João de Deus em Lisboa. Feriado. Ontem estive o dia todo na Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha. Hoje estou na Biblioteca Municipal de Abrantes. O conta-quilómetros do meu carro marca 2100km e ainda falta a viagem de regresso a Lisboa hoje ao final da tarde. Pelas minhas contas, nos últimos 10 dias, Falei para 1500 alunos e assinei cerca de 400 livros. Amanhã descanso. Domingo, se a chuva permitir, estarei na Feira do Livro de Lisboa, na Praça Leya, para rabiscar livros, para conversar, para ver amigos que não vejo há muito tempo. Mas a partir de segunda-feira, o meu tempo é outra vez só meu. Vou estar em casa, quieto e a conviver com o silêncio, que é um atributo do nosso mundo que eu prezo muito. Vou ler. Vou publicar um texto neste blog. Vou cozinhar um risotto de espargos e cogumelos e vou comê-lo sem pressas. Vou semear ervas de cheiro. Vou brincar com legos. E vou escrever - tenho tantas saudades de escrever.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Estes dias

Estes dias têm o mesmo sabor intenso da última semana de aulas. O calor ajuda.

Hoje estive em Salvaterra de Magos para falar com alunos de esolas do concelho. Fiz três sessões. Foram as últimas sessões que fiz este ano (lectivo). Li A MALA ASSOMBRADA. Os miúdos disseram-me que não lhes meteu medo. Mesmo assim tinha esperança de que numa madrugada destas acordem com um pesadelo. Disse-lhes isso. Eles responderam que um pesadelo com A MALA ASSOMBRADA seria um bom pesadelo. Eu sorri.

E faltam dois dias para terminar a Feira do Livro de Lisboa. Amanhã, sábado, 14 de Abril, às 17:00, na praceta da Editorial Presença, há teatro a partir de A MALA ASSOMBRADA pelo Espaço Cativar. Depois, eu e o João Lemos vamos estar disponíveis para autógrafos e conversa.

Antes, às 16:00, conto estar na Praça Verde da Feira para o lançamento do novo projecto do meu estimado amigo e ilustrador de O TUBARÃO NA BANHEIRA, Paulo Galindro. Na verdade, são dois novos livros - Sabes que também podes ralhar com os teus pais? e Sabes onde é que os teus pais se conheceram?. Os textos são da Maria Inês de Almeida. Na editora Booksmile. E isto faz-me lembrar a promessa que fiz a mim próprio há coisa de dois anos: arranco um dente se não volto a trabalhar com o Paulo Galindro.

Segunda-feira dou a última aula da oficina de escrita de livro infantil na Escrever Escrever. A próxima oficina será só em Outubro.

Depois, para além de uma ou outra apresentação de livros e autógrafos, vou sair de cena. Há outras prioridades que se impõem. As palavras vão ter que esperar, embora haja dois livros para terminar. Espero que o verão seja longo, que o tempo me permita espaço para tudo. Espero conseguir continuar a aparecer por aqui sempre que me apeteça aparecer por aqui.

Isto não é uma despedida, claro. A última semana de aulas nunca era exactamente uma despedida.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Recapitulando

Eu queria ter escrito antes, mas os dias andam apertados demais. Hoje não é excepção, mas acabei de chegar a casa e descobri que tenho um par de horas para gastar. De modo que aqui vai, em jeito de recapitulação.

A semana passada estive dois dias em Viana do Castelo, a convite da Biblioteca Muncipal, para a 2ª dos Contornos da Palavra, um festival literário que vai crescer. Este ano, o tema era Literatura de Viagens. No primeiro dia orientei duas oficinas de escrita criativa. Não estava seguro em relação a esta actividade, sobretudo porque se tratavam de alunos entre os 16 e os 18 anos e todos as oficinas que fiz até hoje foram com adultos. E depois as minhas preocupações cairam por terra assim que começámos os exercícios. Porque a imaginação deles é ampla e ao mesmo tempo controlada e a forma como usam as palavras é verdadeiramente eficaz, as frases apresentam múltiplas leituras e imagens poderosas, e sabem assimilar nas suas intenções as sugestões que recebem. Quero fazer isto mais vezes.

No segundo dia em Viana, falei com alunos do 9º ano de três escolas diferentes sobre literatura e viagens e li algumas páginas de DEIXEM FALAR AS PEDRAS. E tenho a sensação de que o gozo que me dá ler este livro para adolescentes nunca vai esmorecer.

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Na passada sexta-feira foi publicado no Ipsilon, o suplemento de cultura do Público, um artigo de várias páginas sobre a nova geração de narradores portugueses na literatura e eu entre eles. Não me atrevo sequer a considerar a hipótese de que a minha fotografia na capa me coloque mais à frente que os restantes autores citados no artigo. E não quero passar a ideia de que a literatura que não encontra traves mestras na narrativa está condenada a desabar. A literatura de ficção, para minha enorme felicidade, é muitas coisas diferentes e para mim a narrativa é muitas vezes o mais importante, mas apenas enquanto autor. O leitor que sou quer percorrer mais caminhos para além desse.

Sobretudo, como noutras ocasiões semelhantes, fico feliz pelo interesse e confiança no meu trabalho e pelo apoio que recebi.

No mesmo Ipsilon vem uma crítica do João Bonifácio a DEIXEM FALAR AS PEDRAS. Assim que estiver disponível deixo aqui a ligação.

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Ontem, Feira do Livro, sessão de autógrafos na praça Leya. Não foi exactamente sessão de autógrafos porque dois autógrafos não é uma sessão de autógrafos. Mas estava a chover e era apenas o primeiro fim-de-semana da feira e há a questão da crise e as pessoas (eu incluído) deixam as compras para a happy-hour. Foi, ainda assim, uma tarde bem passada, à conversa com editores, autores, jornalistas e leitores que pararam na mesa onde estava sentado.




E consegui apanhar o final do debate no auditório da feira sobre o balanço editorial do ano na literatura infantil, moderado pela Sara Figueiredo Costa. E ainda bem porque estavam a debater-se coisas importantes, se é que nisto da literatura há coisas importantes.

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Hoje de manhã estive na Escola Alemã do Estoril a falar com alunos do primeiro ciclo sobre livros e imaginação. Isto é, eu falava e em simultâneo alguns alunos traduziam o que eu dizia para alemão para aqueles que não compreendem português. E como noutras ocasiões em que precisei de intérprete fiquei com vontade de ter sempre um a acompanhar-me. Porque o pensamento ganha um outro ritmo, mais lento, mais atento, mais exacto.

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E já está: esgotou-se o meu par de horas livres.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sobre rabiscar em livros

A mão ainda me dói. Passaram-se umas quarenta horas mas a mão ainda me dói. Segunda-feira estive em Ílhavo, a convite da Biblioteca Municipal, onde fiz três sessões com alunos do concelho, duas em escolas, uma na pópria biblioteca. As sessões correram como vem sendo hábito: os alunos espantam-se com as barbaridades que digo sobre literatura e imaginação, entusiasmam-se com as histórias e episódios que conto, às vezes tenho que esperar um ou dois minutos por novo silêncio para conseguir voltar a falar, no final fazem muitas perguntas, algumas que levam preparadas de antemão, outras improvisadas no momento (gosto mais destas). Entre sessões costumo conversar com os professores ou com as pessoas da biblioteca, faço e antendo telefonemas que não podem esperar. No entanto, desta vez, entre sessões, tudo o que fiz foi ficar sentado no mesmo lugar a autografar livros que alguém, diligentemente, me colocava à frente. No total, dei 200 autógrafos, com respectiva dedicatória. De modo que os tendões da mão direita ainda se ressentem, o pulso continua dorido. É uma dor boa, claro.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Eu no Alto Minho

Cheguei ontem à noite a Arcos de Valdevez. Fui muito bem recebido, como sempre que venho ao Minho, com sorrisos e bifes enormes a sair do prato. Está a decorrer a Semana da Leitura e Biblioteca Municipal organizou um programa de actividades na Casa das Artes e nas escolas do concelho que mais parece o de um festival literário. Há escritores de todos os géneros, contadores de histórias, músicos. Os professores trabalharam bem os livros com os alunos e isso percebe-se na participação destes durante as sessões, nos livros que compraram e que seguram à espera de um autógrafo.

Hoje à tarde, numa sessão com alunos do 10º, 11º e 12º anos, li pela primeira vez o DEIXEM FALAR AS PEDRAS em voz alta para uma audiência. Já tinha lido dez linhas quando percebi o tremendo risco a que me estava a sujeitar. Umas das vozes do romance é de um rapaz de 14 anos, chamado Valdemar, problemático na escola e em casa, obeso, fanático de heavy-metal. Embora não seja um romance juvenil, enquanto escrevia, tentei encontrar o equilíbrio no tom entre o literário e o realista, sem nunca ter certezas sobre se um adolescente leitor se identificaria com a minha personagem. De modo que hoje, ao ler em público as primeiras dez páginas, acabei, sem querer, por forçar o romance à apreciação de quase uma centena de adolescentes.

Houve muito silêncio. Mas não o mesmo silêncio de alguns minutos antes, quando li um conto do HISTÓRIAS POSSÍVEIS, que pouco lhes disse. Era um silêncio mais forte, eles queriam falar mas alguma coisa dentro deles impedia-os. Queriam ouvir. De vez em quando respiravam mais alto, todos ao mesmo tempo. Riram-se algumas vezes, quando eu disse palavras como "cabrão", mas também em momentos em que o Valdemar é irónico e cínico na sua descrição dos acontecimentos. Depois de 10 minutos eu parei e disse: "Querem que continue?" Eles disseram que sim, baixinho. Eu continuei. No final bateram palmas (o que também não tinha acontecido na leitura anterior) e quando o aplauso terminou alguém perguntou quanto é que o livro custa. Eu não sei quanto é que o livro custa. Eles levantaram-se e saíram. Eu estava feliz, mas acho que eles não deram conta.

Amanhã há mais sessões aqui nos Arcos. Ainda bem.